9 de novembro de 2018

Culpa

dormi. por minutos que duraram uma eternidade invisível para mim, dormi. sonho nenhum, só o sono mais profundo e imundo. era eu, e eu nunca quis ser eu, mas naquele momento, enquanto dormia, e mais ainda, depois, desperta, nunca quis tanto ser qualquer outra pessoa, qualquer outra coisa que não eu. dormindo, dormente, chame como for. eu dormia, e por dormir não carrego a certeza de que você também estava. considero que estava, e por isso te tiro qualquer responsabilidade. a mim, que estava, com toda a certeza estava, aplico o peso oposto e me entrego à culpa e à escuridão. por mais que tenha acordado antes do tarde demais, é a isso que eu me entrego. felizmente, não há tempo suficiente para que elas me prendam. solto o tapete, como aprendi. não há sujeira. estou acordada.

31 de agosto de 2018

Você não conhece os olhos


Você diz que ama os olhos, que conhece os olhos mais do que ela mesma. Você olha nos olhos e enxerga pedido de socorro, então como ninguém mais enxerga o mesmo, você acredita ser o escolhido, o único que pode salvá-la. Ninguém mais enxerga por trás dos olhos. Não como você. É de você que ela precisa, mesmo sem saber. Afinal, ela não faz ideia de que está em perigo. Só você sabe. Você espera que ela veja que precisa ser salva e que veja sua função de importância nessa história. Você espera que ela veja que precisa de você, mais ninguém. Você espera. E fica. E enxerga pouco a pouco todas as coisas que ninguém mais enxerga. Impacientemente espera. E nada. Nada. Frustrado, você decide ir. Mas um poder quase divino te faz voltar antes mesmo que uma oração intermediária possa ser formada. Você fica de novo. Insiste. Talvez em algum momento ela vá entender. A espera é tortuosa, medíocre, insuficiente, agonizante. Não ser reconhecido da maneira como você merece machuca. Mas ela precisa de você mais do que você precisa de um corpo menos flagelado. Paciência. Mais espera. Talvez ela saiba tão pouco de si mesma que nunca vai entender sozinha. Você, que sempre buscou uma distância segura mas não a ponto de não poder observá-la até o fundo da alma, decide cutucar o ombro dela. Ela se vira e se depara com você em sua fantasia, da cabeça aos pés. O príncipe de cavalo branco. O bravo soldado fardado. O amor, como nos contos-de-fada. Ela olha com os olhos arregalados, os olhos que só você conhece, e acha aquilo curioso, mas não entende. Ela diz que é uma bela fantasia, mas que não faz o estilo dela. Você diz que são vestes normais e ela apenas ri. Você não entende. Não é uma fantasia. Você está ali, parado, pronto para ganhar o prêmio, e ela não lhe entrega nada. Você aumenta o tom de voz e ela recua, sem saber se deve ficar ou ir. Então você se aproxima e a chacoalha, esperando que ela ganhe clareza, você aperta o braço sem delicadeza, o riso se transforma em estranhamento, em falta de reação, em medo, em um grito, em um tapa que te força a parar. Ela pede pra que você vá embora e nunca mais volte. Borbulhando lágrimas de sangue, você vai. Pisando forte, você vai. Esbravejando a ingratidão dela para todos os cantos, você vai. Sentado na sarjeta, você apenas não entende. Não entende como ela pôde não precisar de você, tão contrária à maneira como você precisa dela. Em minutos ela passa, em sussurros que você não consegue distinguir, em risos que você se recusa a escutar. Você deseja que ela tropece e que seu nome seja o primeiro a sujar a boca dela. Ela cai e rala o joelho, mas você não sabe. Você não viu. E ela jamais chamou pelo seu nome. Você ainda não entende, talvez nunca entenda, mas você não conhece os olhos. E ela não precisa ser salva.

12 de agosto de 2018

A voz que não posso esquecer

Promessa vazia e momentânea de nunca desistir dos meus sonhos porque você acreditava em mim muito mais do que eu algum dia vou ser capaz de acreditar. Constatação daquilo que eu gostaria que não fosse verdade. Vez em que me encontro como de costume, odiando mentiras que contei pro mundo fingindo que o mundo era você, odiando mentiras que contei pra mim mesma. Sem mentiras aqui: não sei como não desistir de sonhos e antes, ainda antes, não sei como não desistir de mim.

Medo de me esquecer do timbre da sua voz. Eu disse que nunca me esqueceria. Me apavora a possibilidade de um dia me esquecer. Boba que sou. Quando se trata da sua voz, deveria ter mais medo de perder de vista aquilo que ela transmitia, não o timbre. E constantemente, o timbre é mais audível que qualquer discurso ou mera palavra. Pra você ver.

Eu deveria mais é me apavorar e me repreender toda vez que me esqueço dos seus olhos gentis e orgulhosos de mim que nem precisavam de complemento verbal — que mesmo assim vinha. Sinto o ar gelado de agosto cruzar esse buraco da falta que você faz, mas ele é só uma brisa. Não minto quando digo que essa saudade hoje muito mais me aquece que me machuca. O que vem em forma de ventania é aquele que atinge esse da falta que uma versão melhor de mim que sequer sei se já existiu me faz. A voz que não posso esquecer diria que já. Quero acreditar que ela estaria certa.

12 de junho de 2018

I once was lost, but now am found


alguém que penteava meus cabelos de um jeito muito bruto e me buscava na aula de canto toda terça costumava me dizer que "o amor não machuca" e, em uma pausa dramática, completava que "o que machuca é a falta dele". falava feito um sábio. eu balançava a cabeça e dava uma risada baixa, quase imperceptível. queria que ele continuasse dizendo coisas feito um sábio, mas achava aquilo óbvio demais. parecia óbvio pra uma garota sonhadora e romântica que o amor não machucava. na teoria. na prática, não muito.

quem me falava isso não era exatamente o melhor exemplo. quer dizer, ele sabia me amar. amor terno. mas quando se tratava de amor romântico, ele passava muito longe de saber. e eu via sem perceber que ele não sabia. e absorvia aquilo que eu via sem saber o quanto não só ele como tudo ao meu redor deturpava minha visão do que era amor embora me entregasse palavras que eu considerava ensinamentos óbvios. comecei a pensar que eu era idealista demais e que deveria aceitar a realidade como ela era: menos bonita. talvez o amor fosse uma mistura do bom e do ruim. mas nas minhas preces silenciosas eu ainda gostava de pensar que ele não machucava.

o óbvio virou dúvida e duas versões opostas começaram a coexistir na minha cabeça. quando alguém me ofereceu amor pela primeira vez, eu optei por aceitar a versão que a vida me mostrou ao longo dos anos. a de que era difícil e de que contanto que o lado bom estivesse acima do ruim, estava tudo bem, ainda valia a pena, mesmo que doesse. machucava sim. algo me dizia que sentir aquela angústia toda era errado. e no final das contas era mesmo.

quando ele apareceu do jeito certo, estranhei. ele tava lá, batendo na minha porta. ele, que não machuca. pelo olho mágico, quase que não reconheço. me assustei. recusei e me escondi até não ter mais jeito. até eu criar coragem pra abrir a porta. então ele veio, e quando não me machucou, parecia absurdo. cada toque, um respiro aliviado. peso a menos. paz. nada de ruim, nada de amargo. denso, mas leve. foi quando eu soube que aquelas palavras eram reais. foi quando eu soube que era amor. e sabendo, eu jamais vou saber como continuar um texto depois que eu digo que é amor. quer dizer, eu poderia continuar. mas então eu não saberia onde parar. é amor.

1 de abril de 2018

Deixar ir


não é sobre a vontade divina ou o tempo regente das galáxias
nem mesmo sobre o ciclo de idas e partidas brotando sob a terra firme e molhada
sugando e devolvendo nutriente
nos lembrando sempre de que tudo que nasce morre e tudo que morre vira vida novamente

um senhor místico e grisalho não te empurrará contra a parede
martelando o dedo sobre um relógio de pulso desgastado 
tempo tempo tempo
o seu está acabado

as forças do universo não vão emergir e subir pelas suas canelas
nem a mãe natureza irá beijar seus lábios contra sua própria vontade
porque é disso que se trata
do reconhecimento da inegável verdade
que te fará consentir e se sentir à vontade
pra enfim se deixar ir

entender que apesar de sua postura rígida e firme e séria demais
você experimentou da seiva bruta da maneira que pôde e elaborou açúcar e outros sabores
criou raízes e espalhou sementes e flores
por cada pântano lamacento e por cada calçada de pedra
por todo todo lugar por onde passou e que te transpassou

isso tudo quando de fato era você 
mas agora
não importa por onde passou ou pelo que passou
simplesmente
passou

passou do ponto
seu corpo cumpriu sua missão
e agora padece padece
não emite nada além de dor
nenhum outro som

é hora de aceitar que já não é você
habitante integral dessa pele gelada e pálida
que o limite existe e não é o fim
e você é preciosidade pura
(mas) seu coração tem cor de marfim

e não precisa ter medo
que não tá escurecendo
é só o pôr do sol
te abraçando
te ronronando um segredo

mas pra ouvir você precisa se permitir
como jamais se permitiu

deixar ir

e tudo bem deixar ir.
tá tudo bem.

25 de dezembro de 2017

Uma carta aberta ao ano das emoções




parece que faz uma eternidade desde que eu anunciei o iminente fim de 2016 e expus minhas constatações sobre crescer e fazer escolhas e sacrificar heróis contra a própria vontade. era tudo honesto e idealizadamente cru, com palavras que tentavam ser racionais, mas tombavam muito mais pra um lado introspectivo e emocional, como acontece com tudo aquilo que eu toco. meu último parágrafo disse tudo sobre aquilo que eu não era: alguém que se permitia.

àquela altura, eu não fazia ideia do que seria de mim. da minha vida. não existia direcionamento nenhum. do que eu tinha certeza: tudo seria diferente em alguns meses. de alguma maneira, eu iria pra um lugar desconhecido cheio de pessoas desconhecidas e só havia duas opções: me fechar num casulo confortável como a escritora cautelosa, romântica e presunçosa que sempre fui ou me entregar por completo e finalmente viver de uma maneira genuína e inteira. quando o avião chegou pra me levar, embora eu estivesse com medo por ser tão inexperiente e pequena, eu soube que a primeira opção seria inviável. 

de repente eu estava rodeada por prédios gigantescos, muito maiores que eu, e eu quis me expandir, quis me fazer tão grande quanto os prédios, e se eu não podia fazer isso externamente, eu deixaria minha intensidade sempre tão massacrada e reprimida me preencher. eu tinha de subir, de estar no topo. eu tinha de me permitir. de sentir violentamente. e você sabe o que eles dizem: quanto maior a altura, mais feia a queda. é verdade. mas foi lá no alto que eu pude entender que eu estava viva. foi caindo que eu percebi o peso dos meus ossos e a fragilidade da minha pele. o mais incrível? eu continuo viva.

como a última personagem que escrevi, me vi recitando o cântico 13 no tom mais sincero possível. logo no primeiro capítulo, uma nota aos leitores: "tenham paciência com ela". acho que eu deveria ter dito isso a cada pessoa que me conheceu. mas talvez tenha sido mais bonito desse jeito: não havia notas iniciais, finais ou gerais e, mesmo assim, essas pessoas foram generosas e pacientes e compreenderam (ou não) o furacão emocional que me habita. 

eles me viram no começo, como aquela que se esforçava pra conter a bagunça. depois, como alguém que não sabia domá-la. seguida pela que se diminuía pra se encaixar onde claramente não se encaixava. e pela que era tudo simultaneamente. agora, embora eu não saiba que tipo de pessoa eu sou, tenho a certeza de que aceito minhas escolhas, não importa o quão erradas elas pareçam ou sejam. eu aceito o que sinto e deixo as emoções apenas serem. e as pessoas generosas e pacientes que conheci no caminho também as aceitam. então tudo bem eu ser um ímã para o drama. talvez eu goste do drama. ele me lembra da sensibilidade e da fluidez da vida, que sempre me foram particularmente encantadoras. entretanto, eu nunca havia levado isso tão à risca.  

me deixei transbordar e foi tudo como eu imaginei que seria, muito embora nada tenha sido como eu imaginei que seria. me vi recomeçando de novo e de novo e de novo. renunciando a coisas, pessoas, sentimentos, desejos e expectativas e entendendo, amando e odiando o fato de que nada é nosso porque nada permanece e o de que se nada é nosso, nada pode ser realmente perdido (diga isso aos 2 celulares e aos 4 números que perdi esse ano). encarei espelhos com desprezo e me autodeclarei um fardo pela milésima vez. dancei sobre nuvens e sobre cacos de vidro, deixei o hipnótico tomar conta de mim, conversei com coelhos e percebi porque às vezes, por bem ou por mal, o eterno dura um só segundo. enfiei o dedo na garganta e vomitei meus sentimentos até perder a voz. atendi ao chamado dos meus impulsos mais primitivos. estive num processo de imersão de mim mesma que me fez o mais vulnerável dos seres por mais tempo do que seria considerado seguro. diversas vezes, achei que eu pudesse controlar coisas que só não estavam ao meu alcance. contudo, em certos momentos, o que eu gosto de chamar de algoritmo do universo simplesmente acontece.

todas as teorias da garota que escrevia histórias caíram por terra. precisei me apoiar em novas teorias pra tentar trazer algum sentido pra alguma coisa. pra tornar mais fácil viver em um mundo selvagem e tão novo pra mim. o que eu descobri, entretanto, é que a vida não é pragmática como uma correção de texto. é mais como um longo processo criativo ficcional. não é marcar a porra de um gabarito. é receber uma folha em branco com a pergunta mais subjetiva já inventada e esperar por um resultado cujos critérios de avaliação nunca serão descobertos.

assistindo a uma série esses dias, conheci a tal regressão à média, sobre natureza e equilíbrio. significa que não importa o quão ruins ou o quão boas sejam as coisas, a tendência é que a gente esteja vivendo, na maior parte do tempo, no meio disso. acho que é preciso entender que nem a felicidade nem a tristeza são estados permanentes de espírito. e o meu espírito, ainda que no espaço intermediário entre o bom e o ruim, só se satisfaz captando a intensidade total tanto do que é pequeno quanto do que é grande. eu aceito isso. finalmente.

eu, que nunca fui a maior entusiasta de mim mesma e que sempre estive quase, nunca lá, cheguei . e nesse instante, novamente perdida, continuo não sendo suficientemente entusiasta de mim e longe de um lá que mal é rascunho. no entanto, acredito que minhas experiências morando com um rato, uma lagartixa e 50 pessoas com pouca noção de higiene e lidando com preliminares latinas na porta do meu quarto me tornaram forte o bastante pra aguentar qualquer merda que surgir no meu caminho, como uma rachel earl sozinha dentro de um trem.

12 de setembro de 2017

Não foi um sonho da meia-noite


se suas lentes não fossem tão baratas
se suas mãos não fossem tão ariscas
se seu faro não fosse tão ineficiente
se travessões fossem meias-riscas

imploraria para que me soltasse
que não chegasse
tão além do perigosamente perto
que não enxergasse
sob minhas unhas
pele e sangue triturados
(feito o que sobrou da gente)

eu não ousaria deixar seus dedos
afastarem meu cabelo pro lado direito
nem sua boca tocar meu pescoço
sutilmente
você sentiria o cheiro de sangue
e a ferida ainda quente.